AFONSO ESTEBANEZ STAEL (*) nasceu em 30 de outubro de 1943 no ambiente agreste do município de Cantagalo, Estado do Rio de Janeiro, filho de Manoel Stael e de Francisca Estebanez Stael, descendentes de ancestrais ciganos emigrados para a Espanha e de alemães de origem judaica radicados nas regiões agrícolas da Bélgica, que posteriormente imigraram para o Brasil entre 1860 e 1890, motivados por Decreto de El Rei D. João VI, do início do séc. XIX, que incentivava a imigração de europeus para o Brasil, com a finalidade de fomentar a colonização das regiões agrícolas das terras brasileiras.

É advogado, poeta, cronista, jornalista e escritor brasileiro. Membro da Academia Brasileira de Poesia – ABP. Reconhecido oficialmente como Filho Ilustre de Cantagalo/RJ, berço de Euclides da Cunha. Estebanez é verbete na Enciclopédia de Literatura Brasileira (vol. 1, pág. 562, 1990), composta pela Oficina Literária Afrânio Coutinho (Olac), organizada por Francisco Igrejas e editada pelo Ministério da Educação e Cultura e Fundação de Assistência ao Estudante do Rio de Janeiro, e no Dicionário de Poetas Contemporâneos, editado por Oficina Letras & Artes, 2ª Edição, 1991 (pp. 25/26).

Fez o curso secundário no Seminário Arquidiocesano São José (1956/1962), no Rio de Janeiro, colégio religioso destinado à formação filosófica e teológica de jovens para o exercício sacerdotal, onde estudaram diversas personalidades da vida pública brasileira (SANTOS, Antônio Alves Ferreira dos. A Archidiocese de S. Sebastião do Rio de Janeiro: Subsídios para a história eclesiástica do Rio de Janeiro, capital do Brasil. Rio de Janeiro: Typografia Leuzinger, 1914).

Estebanez cursou o ensino superior nas faculdades de Direito (1965/1969) e de Filosofia, Ciências e Letras (1965/1968) da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói/RJ, destacando-se no ambiente cultural universitário fluminense, tendo participado ativamente dos movimentos da poesia alternativa dos anos 70 no Brasil, época em que se destacariam também nomes de celebridades literárias brasileiras como os de Alphonsus de Guimarães Filho, Geir Campos, Homero Homem, Anderson Braga Horta, Walmir Ayala, Emil de Castro, Carlos Nejar, Pascoal Carlos Magno, Luiz Antônio Pimentel, Gastão Neves, Cesar de Araujo e outros simpatizantes das obras de Pablo Neruda, Garcia Lorca, Maiakóvsky, Bertold Brecht, Fernando Pessoa, Rimbaud, Tagore e Eugene Evtuchenko, cuja bandeira literária pudesse ser alinhada aos ideais da universalização da particularidade humana. “A revolução cubana trouxera a hispanoamérica para o ambiente universitário e artístico brasileiro” (v. BRAGANÇA, Aníbal. In pref. de “Um Sol Maior que o Sol”, de ARAUJO, César. Editora Tesaurus. Ed. 2006, pp. 13/21).

Foi proclamado finalista nos 1º, 2º e 3º Torneios Nacionais da Poesia Falada (1968/1969/1970), patrocinados pelo governo do Estado do Rio de Janeiro, através de sua Secretaria de Educação e Cultura e respectivo Departamento de Difusão Cultural, concorrendo com obras como “Contagem Regressiva”, “O Astronauta” e “Livro de Viagem ou do Depoimento”, esta última (3º TNPF) vetada por agentes do serviço de censura da Delegacia de Ordem Política e Social (DPS) na madrugada de 15 de dezembro de 1970, pouco antes de sua apresentação nacional pela Rede Globo no palco do Teatro Municipal de Niterói/RJ (Diário de Notícias, ed. de 16/12/1970, in Coluna do RJ).

Foi vencedor do Primeiro Concurso Estadual de Poesia do Advogado Fluminense (1987) com o poema de crítica social “Canto de Abrição”, seguido por destacados nomes da literatura brasileira como Estanislau Fragoso Batista, Elio Monnerat Sólon de Pontes, Emil de Castro, Ennio Quintanilha Sanches e Alaôr Eduardo Scisínio (in Primeira Antologia Poética dos Advogados do Estado do Rio de Janeiro, Ed. OAB/RJ, Subseção Niterói, Celu Editora Ltda, 1988, 268 pags).

Em julho de 2007, concorrendo com o poema “O Último Dia de Trabalho do Pôr-do-Sol no Mar” e com a crônica “Trabalho como Escrevente de Pequenos Príncipes”, venceu o Primeiro Concurso Interno de Literatura do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região (TRT- Rio), nas duas categorias (prosa e verso), com premiação em obras literárias famosas oferecidas pela Academia Brasileira de Letras (ABL).

Afonso Estebanez, atualmente residente em Niterói/RJ, está integrado ao movimento universal de POETAS DEL MUNDO e, no Brasil, ao movimento de divulgação da poesia contemporânea, com página pessoal no site cultural ALMA DE POETA, de repercussão internacional, gerenciado pelo escritor fluminense Luiz Fernando Prôa, do Rio de Janeiro/RJ, com página pessoal também em POESIA IBEROAMERICANA, site cultural administrado pelo escritor brasileiro Antônio Miranda, de fama internacional, em REVISTA DE POESIAS, site cultural criado e gerenciado pelo poeta carioca Antônio (José) Poeta, em POÉTICA DIGITAL, site de Rede Cultural criado pela poetisa brasileira Delasnieve Daspet, Consul de Poetas Del Mundo no Brasil, de fama internacional, em RECANTO DAS LETRAS, site de Rede Literária mundialmente conhecido, em JORNAL O REBATE, Jornal Eletrônico de foro internacional, fundado em 1932, atualmente dirigido pelo escritor, memorialista e historiador fluminense José Milbs, destacando na página da colunista e poetisa Marta Peres, em BECO DOS POETAS E ESCRITORES – LITERATURA PERIFÉRICA: site de Rede de Literatura e Artes de alcance nacional e em A MAGIA DA EXPRESSÃO LITERÁRIA, blogspot literário conduzido pelo próprio autor.

Em enquete realizada entre 9/11/2008 e 31/01/2009 pela Comunidade do Orkut “Poemas à Flor da Pele” – moderada pela poetisa carioca Soninha Porto – Afonso Estebanez, ao lado dos poetas do Rio de Janeiro, Cairo de Assis Trindade e Ferreira Gullar, foi considerado um dos três poetas mais famosos do orkut no Brasil, entrando para o E-Book (Versão 2008/2009) daquela Comunidade com um dos autores mais procurados na internet no país.

Trabalhos publicados: “Canção que Vem de Longe”, poesias (1966), J. Gonçalves Editora - Niterói/RJ; “Livro de Viagem ou do Depoimento”, poesias (1971), Editora Olímpica Ltda, Livraria São José, Rio de Janeiro/RJ; “Em Tempo de Lótus, Lírios e Acácias...”, antologia poética em participação com os poetas maçônicos J. Alves Filho e J. A. Galdino da Costa (1978), Papelaria Brasil Ltda - Niterói/RJ; “Canto de Abrição e outras Sinfolias de Beira-campo”, caderno de poesias e haicais (1988), Edição do Autor, Rio de Janeiro/RJ; “Do Penoso Ofício de Sonhar”, Poesias Reunidas, vol. I, edição artesanal, Editora InSaNno/SP. Obra inédita: “Tori” (Cento e cinqüenta haicais selecionados).

Trabalhos inseridos nas seguintes obras: “Antologia Poética do Grupo Salina”, 1969, coordenação e organização de Cesar de Araujo, Edição Reportagem, Niterói/RJ. “Antologia de Poetas Fluminenses”, 1969, coordenação e organização de Jacy Pacheco, Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro. Publicações de “Poesia Falada” dos 1º, 2º e 3º Torneios Nacionais da Poesia Falada (1968, 1969 e 1970), Departamento de Difusão Cultural da Secretaria de Estado de Educação e Cultura do Estado do Rio de Janeiro, Imprensa Oficial, Niterói/RJ. “Poesia Cartaz do Grupo Salina”, 1970, Departamento de Difusão Cultural da Secretaria de Educação e Cultura do Estado do Rio de Janeiro, coordenação e organização de Cesar de Araújo e Gastão Neves, ilustração de Miguel Coelho, Niterói/RJ. “Mutirão de Poesia”, 1983, coordenação e organização de Walmir Ayala e Sérgio Ribeiro Rosa, Editora Contemporânea, Rio de Janeiro/RJ. “Primeira Antologia Poética dos Advogados do Estado do Rio de Janeiro”, 1988, Departamento de Integração Cultural da Ordem dos Advogados do Brasil, coordenação e organização de Cesar de Araújo, sendo presidente da Subseção/Niterói da OAB/RJ Solange Mattos, Celu Editora Ltda, Niterói/RJ. “Poesia do Brasil”, vol. 7, Proyecto Cultural Sur-Brasil, XVI Congresso Brasileiro de Poesia, Bento Gonçalves/RS, Out/2008, Org. Artur Gomes e Cláudia Gonçalves, Proj. Gráfico: Ademir Antônio Bacca, Editora Grafite Ltda, pág. 19/24. “Poesia do Brasil”, vol. 8, Proyecto Cultural Sur-Brasil, XVI Congresso Brasileiro de Poesia, Porto Alegre/RS, Out/2008, Org. Ademir Antônio Bacca e Cláudia Gonçalves, Proj. Gráfico: Ademir Antônio Bacca, Editora Grafite Ltda, pág. 19/24. “Poeta mostra a tua cara”, vol. 5, Proyecto Cultural Sur-Brasil, XVI Congresso Brasileiro de Poesia, Porto Alegre/RS, Out/2008, Org. Ademir Antônio Bacca e Cláudia Gonçalves, Proj. Gráfico: Ademir Antônio Bacca, Editora Grafite Ltda, pág. 16/18, figurando ainda entre os “Poetas do Brasil”, segundo blogger cultural do conhecido poeta brasileiro Ademir Antônio Bacca. “Argila” 13, Dezembro de 2008, Revista da Academia Brasileira de Poesia (Casa Raul de Leoni-Petrópolis/RJ), Org. poeta Sylvio Adalberto, Ed. ParkGraf, 2008. Poesias, Crônicas e Reportagens Esparsas em Revistas e Jornais (1962/2004): “Academia Brasileira de Letras”, “O Fluminense”, “O Prelo”, “A Tribuna”, “O Centro Norte”, “Gazeta de Cordeiro”, “Jornal da Região”, “Classitudo Notícias”, “Folha Serrana”, “Jornal Manchete”, “Krônicon Cultural”, “Boletim da Academia Itaocarense de Letras”, “Letras Fluminenses”, entre outros.

Ligações externas de Afonso Estebanez Stael com entidades culturais diversas: Academia Cordeirense de Letras – Academia Itaocarense de Letras – Academia Anapolitana de Filosofia, Ciências e Letras – Academia de Letras de Uruguaiana – Academia de Letras da Fronteira Sudoeste do Rio Grande do Sul – Academia Internacional de Letras Três Fronteiras – Academia Internacional de Ciências Humanísticas – Academia Internacional de Literatura e Jurisprudência – Academia Internacional de Heráldica e Genealogia – Associação Uruguaianense de Escritores e Editores – Associação Fluminense de Escritores – Centro de Estudos e Difusão Cultural Romaguera Corrêa – Clube dos Amigos de Euclides da Cunha do Estado do Rio de Janeiro – Clube de Poesia de Uruguaiana – Clube Internacional de Boa Leitura – Centro Cultural, Literário e Artístico da Gazeta de Filgueiras de Portugal – Federação das Entidades Culturais Fronteiristas – Instituto Histórico e Geográfico de Uruguaiana. Academia Cabista de Letras, Artes e Ciências. Academia Brasileira de Poesia (Casa Raul de Leoni).

Poetas del Mundo – Em 17 de março deste ano (2009) o Consulado Internacional de Poetas del Mundo, por indicação da célebre poetisa brasileira Delasnieve Daspet, Embaixadora para o Brasil de Poetas del Mundo, e do renomado poeta brasileiro João Carlos, Cônsul de Poetas del Mundo para o Estado do Rio de Janeiro, Afonso Estebanez Stael recebeu recentemente a Comenda de Cônsul de Poetas del Mundo para sua cidade natal, por indicação da poetisa brasileira Delasnieve Daspet e por nomeação do poeta chileno Luis Arias Manze, Embaixadora no Brasil e Secretário Geral, respectivamente, do Movimento Mundial pela Paz, com sede em Santiago do Chile.

(AS)AMOR(AS)

Bom é aprender a não colher amoras
além dos muros frágeis dos pomares
pois entre as aves moram as auroras
que vivem das amoras dos pomares.

Se Deus pode prover nossas desoras
com primícias do agora sem pesares,
proveja Deus, então, que tuas horas
sejam desoras para os teus pesares.

Se Deus quer operar algo espantoso
como o êxtase dos corpos estelares,
pode o amor de nós dois virar razão.

Se o amor vier do instinto generoso
será como as amoras e os pomares
onde esse amor pode virar paixão...

Afonso Estebanez



A ALMA SONHA SOZINHA

Anda a minh’alma sonhando
tão sozinha e acompanhada,
que às vezes vivo pensando
que a alma sonha acordada.

Mas sonhar é um fio d’água
que sozinho entrega ao mar
muitos afluentes de mágoa
que se escoam sem passar.

Sejam simples como a flor
que sonha sonhos calados
dos que perecem do amor
dos sonhos não realizados.

Somos a curva da estrada
dos sonhos que vão além:
sonhar sozinha sem nada
é tudo o que a alma tem...

Afonso Estebanez
(Dedicado ao escritor carioca
Antônio Poeta – criador do site cultural
“Revista de Poesias” / Rio de Janeiro)



A CANÇÃO DA ESPERA

Quando deixares meu desavisado coração
não esqueças de deixar a luz da lua acesa.
Deixa a chave da esperança sobre a mesa
do quarto onde dormiu teu último verão.

Não te esqueças das romãs do teu outono
só porque as sombras do inverno te virão
como lembranças de um amor de ocasião
que não conciliava mais o próprio sono.

Talvez eu me adormeça aqui para sonhar
com o outro lado temporão da primavera
onde eu sonhar me seja estar à tua espera
doendo de um retorno de qualquer lugar.

Estarei dividindo com as águas do riacho
uma breve canção de prazer e sofrimento
sobre a vida refeita de pena sem lamento
o coração envolto no seu próprio abraço.

Afonso Estebanez



A FÊNIX DE HIROSHIMA


Oh, flor do céu tão cândida e tão pura!
Ô, fênix dos escombros de Hiroshima!
Devolva o desamor à dor da sepultura
e ao seu algoz o horror dessa chacina!

A dor que dói da guerra é a dor futura
e a rosa que a dor lembra é a matutina
por quem dobram os sinos é a ternura:
a fênix dos escombros de Hiroshima!

Por quem dobram os sinos é candura:
a fênix dos escombros de Hiroshima!
A rosa ensangüentada estava impura
nos escombros da aurora vespertina!

Ah, flor do céu tão baça e tão escura!
Prenúncio dos crepúsculos em ruína!
Devolva a paz ao mundo com doçura:
a fênix dos escombros de Hiroshima!

Afonso Estebanez



ADÁGIO COM SENTIMENTO


Ah, os dedos entre as pétalas de rosas brancas
sentimento da alma em todo o amor do mundo
nas teclas de um piano as flautas doem tantas
quantas doem as mágoas de meu ser profundo.

Cantata ou fuga entre crepúsculos em quantas
semibreves de outono vai-me o amor fecundo
esse cantar de sonho com que tu me encantas
segundo o nunca mais de apenas um segundo.

O compassado amor – em dor menor – talvez
enquanto a noite for meu lume inda que tarde
o compensado amor – em dor maior – jamais!

Que toda aurora é o anoitecer de alguma vez
meu dia é essa canção composta de saudade
e minha noite quase sempre é um nunca mais...

Afonso Estebanez



ALGUMA ANGÚSTIA

Não suporto esse perfume
com lembrança de partida
e não suporto o queixume
desta angústia consentida.

Não suporto esses jamais
dos meus dias de finados
da memória de meus pais
nos jardins abandonados.

Nem suporto esse destino
dos meus mares afogados
num naufrágio vespertino
de sonhos não navegados.

Não suporto mais saudade
não suporto o nunca mais
nem suporto a eternidade
dos meus navios sem cais...

Afonso Estebanez



ALGUMA SAUDADE

Feliz é quando a espera alcança
bonito é onde é o fim da espera
o sonho é quando há esperança
num bem que nunca desespera.

Saudade é a casa da lembrança
de um longo estado de quimera
sonhar-te é andar como criança
no andar sem fim da primavera.

Amar-te é o quando de desejos
o enquanto matas-me de beijos
morrendo em mim tua vontade.

Feliz é o tanto com que te amo
malgrado tudo em meu outono
resta-me um pomo de saudade...

Afonso Estebanez



ALMA DE MENESTREL


Não deve morrer um dia
sem que a noite seja tua
nem meu sono sonharia
sem uma canção da lua...

Nem deve correr um rio
tão distante de seu leito
passa a noite vem o frio
eu distante de teu peito...

E nem te seja saudade
a saudade que me vem
por amor não há idade
pela idade que ele tem...

E vais tu levando a lua
pelas ruas do meu céu
com a alma quase nua
por teu doce menestrel...

Afonso Estebanez



ALMA DE ORKUT

Todos os dias são meus dias de manhã
e toda face são meus olhos nas janelas
algumas delas como as flores da romã
coroam-se do amor fiel das cinderelas...

Minhas almas virtuais das primaveras
meus amores dos ontens reinventados
ressurreição dos sonhos das quimeras
beijo de scraps dos sentidos intocados...

Ô, sorrisos perfis da nova renascença
corpos d’arcos triunfais da esperança
olhos verdes nos ramos da inocência
ou deuses imortais da minha infância...

Ôrkut! olhar de encantos deflagrados
em janelas online como o sol na flor...
Quero essa luz de amigos encantados
entre as faces cosmográficas do amor...

Afonso Estebanez



ALMA DE PÁSSARO


Eu não sou maior
e nem sou menor
sou apenas como
adjunto do modo
eu somente podo
o resto é o pomo.

Nada é diferente
todo dia sempre
faz o outro igual
e nem é demora
o vagar da hora
refratária ao sol.

Há a água turva
há além a curva
onde o dia vaza
há a água funda
a luz é profunda
a alma é a casa.

Às vezes me falo
às vezes eu calo
para me escutar
e sei pelo vento
e pelo momento
de como cantar.

O eu vem à tona
o amor é carona
e vaga a viagem
a flor é a espécie
na rosa acontece
o resto é aragem.

Afonso Estebanez



ALMA DE POETA

Exuma desse amor que a poesia
é dom da liberdade de um poeta
como a aurora na estrela luzidia
é dom do novo dia que desperta...

As almas dos poetas são magia
onde o ser infinito se completa
em espasmos de paz ou agonia
feliz de reviver só do que resta...

Poeta não é presa dos sentidos
é o exílio dos pássaros banidos
de alma livre e cativa se quiser...

Só há um ser de amor e alma repleta
capaz de cativar a alma de um poeta:
é o ardoroso coração de uma mulher...

Afonso Estebanez



ALMA PARTIDA


Eu tenho a alma partida
por duendes da loucura
por causa da despedida
entre o amor e a ternura...

Loucura de amor jurado
pela jura não cumprida
do lado compromissado
da ternura prometida...

De súbito foi o instante
em que tudo se perdeu...
Mas era tempo bastante
de viver o que morreu...

E tudo o que era presente
foi tempo tão esquecido
que a ternura impaciente
não viveu o amor perdido...

E assim a alma partida
por duendes da loucura
ser causa da despedida
entre o amor e a ternura...

Afonso Estebanez



AMANTES DA ALDEIA

Eles tinham cabelos brancos
do amor que dói e não passa
e a lembrança dos encontros
por entre os jardins da praça...

Fecundavam-se entre beijos
e entre abraços numa dança
encobrindo entre os desejos
velhos segredos da infância...

Eram como almas agrestes
das aves férteis de outonos...
E se amavam nos ciprestes
dos silvestres cinamomos...

Ah!... os amantes da aldeia
são de quando o amor doía...
E quando morria um deles,
ah, o outro também morria...

Afonso Estebanez



AMAR É PRECISO...

Já furtei sonhos do mundo
já apanhei brisas do vento
enganei meu ser profundo
por amar seu pensamento.

Eu mesmo me dei o braço
só com medo de esquecer
de lembrar do seu abraço
que em você me fez viver.

Como a âncora e o navio
um dos dois deve atracar
até que um sonho baldio
nos carregue para o mar.

Amor no mar é profundo
tão fundo que nem se vê
o mar no topo do mundo
fremir de amor por você!

Afonso Estebanez



SENSAÇÕES

Não gosto de movimentos.
A não ser dos sentimentos
de amores de uma mulher.

Não gosto de movimentos.
Senão de nuvens e ventos
quando passa uma mulher.

Não gosto de movimentos.
Senão daqueles momentos
do prazer de uma mulher!

Afonso Estebanez



SEGREDOS DA INSÔNIA
I

Até que a noite faça agonizar-me o sono
meu coração ainda insiste em pressentir
ruídos de batidas nos porões da insônia...
Mas sei que me é possível resistir!

São pesadelos reencarnados do passado
morto... Fantasmas de navios ancorados
nos cais abandonados das ilhas de mim...
E sei que me é possível resistir!

Até que em morte acorde e eu adormeça
ainda sinto adormecidas sensações de ti...
De um lugar assombrado em minha vida
de onde sei que é possível resistir!

Ô, mulher-menina que perdi na infância
canção de bem-querer do quanto padeci...
Uma certa saudade vadia sem distância
e ainda assim me é possível resistir!

Afonso Estebanez



SEGREDOS DA INSÔNIA
II

Até que essa lembrança enfim me esqueça
há noites de desterro do amor que não vivi.
Pode ser exaustão de luz na lâmpada acesa...
E ainda assim me é possível resistir!

Contorno a direção da porta, transtornado.
Pode ser um carteiro noturno e devo abrir.
Pode ser o domingo retornando ao sábado...
E ainda sei que me é possível resistir!

Talvez um corpo astral de aeronauta ainda
meu duplo que retorna antes de prosseguir
na fé dos missionários da esperança finda...
E ainda me é possível resistir!

Porém vou levantar-me lentamente agora
e reescrever os últimos versos que escrevi.
Depois vou caminhar devagar até a porta...
Pois não é mais possível resistir!

Afonso Estebanez



SEGREDOS DA INSÔNIA

III

Permitir que me banhe a claridade do luar
como a alvorada inaugural o ultimo porvir.
Por trás do reposteiro um anjo me convida
e não é mais possível resistir!

Guardo as fotografias dos parentes mortos.
Depois conforto meus sentidos sem sentir...
Os versos falam já transcritos na memória
que é quase impossível resistir!

E antes que o coração em cânticos pereça
devo afinal abrir a porta, morrer e desistir...
Como a hora desiste do relógio sonolento
sem tempo agora para resistir!

Eu me absolvo de afogar-me em lágrimas
se é para sempre que esta noite vou partir...
Vou perder-me entre a linha do horizonte
e viver e sonhar e morrer sem resistir!

Como vivem os lírios dos campos...
Como sonham os pássaros da paz...
Como ama o amor os desencantos...
E morrem os heróis sem desistir...

Afonso Estebanez



EU SEI QUANDO TU VENS

Não preciso sondar os pensamentos
nem consultar meu vasto coração
para saber os dias e os momentos
em que me vens trazer consolação...

A mim me basta olhar pela janela
e abraçar a manhã no meu jardim
e sei que a claridade que vem dela
é a luz do teu amor dentro de mim...

Deixo a brisa tocar a minha face
ouço as aves que vêm me visitar
e sei de cada rosa que renasce
o teu instante eterno de chegar...

Converso com o vento no telhado
onde o tempo costuma te esperar
de um futuro presente antecipado
por anjos que me vêm te anunciar...

No canteiro de beijos e jacintos
o odor suave de uma flor qualquer
inflama de desejos meus instintos
famintos de teu corpo de mulher...

Então eu sempre sei quando tu vens
sem que precises avisar-me quando...
O amor proclama quando tu me tens
e me prepara quando estás chegando.

Afonso Estebanez



CANTO DE ABRIÇÃO

(Folclórico: Folia de Reis)

Tempo haverá em que
o canto ficará
completamente mudo.

A lágrima será como semente
da palavra salgada
que os olhos plantarão
entre os lábios...

Meu senhor dono da casa
escuta prest’atenção
vem abrir as vossas portas
pra esse nobre folião...

Devastarão casa por casa
cada palmo de chão será salgado
arrancarão todas as portas
e janelas dos sentidos
como o corpo num ritual
de sucessivos fluxos menstruais.

Sempre a história se repete
como a fábula inventada
por um rei que tem de tudo
e um povo que não tem nada...

Mas eu atirarei minha canção
no telhado da minha casa
e a chuva arrastará meus versos
pelas calhas esgotos e canais
e os desaguará em mar aberto
como barcos que despertam
na restinga da manhã...

As noites se perderão
para sempre de seus dias
mãos cheias virar-se-ão
sobre o chão das mãos vazias.

Transmitirei meu canto
boca a boca
como flor que germina
pelo olhar.

Espalharei meus barcos no vento
e minha asas no mar...

No banquete solidário
da miséria consentida
só não morre quem não come
porque a fome é dividida...

Cada grito renascerá
no som do apito de fábrica
cada pranto reprimido
será chuva derramada.

Meu pai se chama João Caco
minha mãe Caca Maria
juntando Caco com Caca
sou filho da cacaria...

De verde as folhas lavadas
nos arbustos das colinas
aos pingos encharcarão
as ramagens de resina...

A sobra que cai de cima
não se bebe nem se come...
Como água não mata a sede
como pão não mata a fome...

Nossa voz terá o calor da luz
no interior de uma choupana
na floresta.
A chuva correrá por claros vales
como fios de lã levados pelo vento.
Os pássaros imigrarão de seus mistérios
e as flores da manhã se regozijarão
como sinos diáfanos de luz
que não se ouvem senão com o coração...

Não quero toda a farinha
somente um pouco do pão
com que vossa mãe Maria
esposou meu pai João...

Os pés dos pequeninos pisarão lá fora
não como as botas que hoje pisam
a relva da esperança
fecundada pelo orvalho.
Eles terão o seu caminho certo
como as reses os sulcos do campos.

Os pés dos pequeninos pisarão lá fora Eles
Quem sobreviver verá
em passos desencontrados
o diabo passar no rastro
sob as cinzas dos reisados...

Todos entoaremos
uma canção que não se ouvia mais.
Os olhos verão coisas inacreditáveis...

E os homens se tornarão
mais unidos pelo amor
como irmãos num só rebanho
pela voz de um só Pastor!

Nosso ódio não tem mais ira.
Andamos de pés trocados
festejando os desmomentos
dos remates acabados...

Meu senhor dono da casa
escuta prest’atenção...
Vem abrir vossa loucura
pro meu canto sem razão.

Afonso Estebanez



SEM MOTIVO

Eu faço versos
porque o verso
é esse momento
em que o amor
dentro de mim
torna-me vivo,
para que assim
eu morra só do
contentamento
de ser feliz sem
precisar de ter
motivo...

Afonso Estebanez



QUINTA ROSA DE DELOS

Hoje em dia ninguém diz mais: eu te amo!
porque convém que apaguem da memória
as lembranças do amor que algum engano
transformou em rascunho alguma história.

Então por quem dizer que ainda me ufano
de morrer-me de amor mesmo sem glória
se o que era sacro vem-me então profano
por quem a renascença é mais simplória?

Sempre cuidei transpor versões proibidas
contra os padrões formais das permitidas
que eu das paixões não descuidei jamais.

Mas os padrões de amor foram vencidos.
Transponho então as flores dos sentidos
e ‘te amo’ entre as roseiras dos quintais!

Afonso Estebanez



SÉTIMA ROSA DE DELOS


O meu amor maior foi da intangível
razão de amar que por amor já tive
e me veio em regresso imprevisível
dos sonhos idos onde nunca estive.

O amor maior é fruto do impossível
que a despeito da morte sobrevive.
Procuro então num elo inconcebível
o espírito da rosa que em mim vive.

Se a rosa existe, tanto amor existe
e mesmo que esperar pareça triste
de triste não pereça quem me quer.

É esse dom que meu amor procura
nos milagres sem causa da ternura
dos instintos de rosas da mulher...

Afonso Estebanez



QUINTA ROSA DE SAROM

Não procurem a rosa pelo céu noturno
onde a luz das estrelas mais brilhantes
é mera imagem no horizonte taciturno
da miragem mais ilusória dos amantes.

As rosas são onipresentes no diuturno
exercício de amar no fio dos instantes.
As rosas nunca têm o espírito soturno
desses invernos já remotos e distantes.

No coração deserto as rosas não estão
e nem dos cânticos das filhas de Sião,
até o santuário edênico do Hermom...

E nem nas tendas amorosas da ilusão.
Mas é nas fendas do sagrado coração
que o grande amor é Rosa de Sarom!

Afonso Estebanez



SÉTIMA ROSA DE SAROM

Minha sétima rosa é a última que a vida
fez na memória do deserto deslembrada
de que no mundo toda flor é concebida
para lembrar de uma verdade revelada.

A verdade da rosa é a aurora resumida
em primavera do deserto sem ter nada
eis que do nada cada rosa é presumida
como uma dádiva profana consagrada.

E Deus é pompa pela tua circunstância
de ser amada com amor em abundância
por esse meu amor inculto de aprendiz.

Mas a sétima rosa induz-me o coração
a reduzir todo esse amor numa paixão
que faz de mim o teu amado mais feliz.

Afonso Estebanez



SEXTA ROSA DE DELOS


De tanto perder lembranças
relembrar deixou-me assim:
deslembrado de esperanças
que se esqueceram de mim.

Perdi os passos das danças
entre andanças do sem-fim
como os olhos das crianças
nos olhos de um querubim.

Um dia eu quis te esquecer
ô, rosa! – meu bem-querer
entre os espinhos da sorte.

Mas fui canto e passarinho
no aconchego de teu ninho
onde me esqueci da morte.

Afonso Estebanez



ÚLTIMA ROSA DE DELOS

Conheço as flores como a rosa o espinho
o trigo ao pão do amor que me alimenta,
em meus vinhedos sou do fruto ao vinho
a abundância do amor que te contempla.

És o princípio e o fim de um só caminho
no mistério do encanto que me inventa:
no horizonte do olhar de um passarinho
esplende a luz do amor que te contenta.

Não mais pressentimentos de distâncias
nem mais esse pesar das circunstâncias
de almas gêmeas em mundos paralelos.

Se um tempo aqui nascemos e vivemos
e aqui morremos, sim!... e morreremos
como as rosas de pedra, mas de Delos!

Afonso Estebanez



ÚLTIMA ROSA DE SAROM

Além dos muros do meu coração aberto
os cantares das rosas que plantei no pó
são sensações da primavera no deserto
aquém dos muros dos jardins de Jericó.

E sou a Rosa de Sarom em teu desperto
coração tão infenso ao estar morto e só
em que se cumprirá o antigo manifesto
das rosas castas dos jardins de Jericó...

Bendito quem deixou as trevas pela luz
por ter plantado rosas no lugar da cruz
entre os canteiros dos jardins de Jericó

de onde a última Rosa de Sarom voltou
para ascender ao Pai a rosa que restou
além dos muros dos jardins de Jericó...

Afonso Estebanez



SUAVE É A ESPERA...

Deixa tua alma numa rosa
e um sonho no amanhecer
para ver minha esperança
que hoje espera te rever...

Tu não precisas do tempo
quando o amor acontecer.
O amor te chega na brisa
quando o sonho alvorecer.

Deixa o coração na porta
e um arco-íris no jardim...
A esperança se comporta
como flor dentro de mim.

Que suave é toda espera
para quem quer renascer
num sonho de primavera
que renasce sem morrer...

Afonso Estebanez



TRINTA E CINCO GOTAS
DE MAR ATLÂNTICO
NAS ÁGUAS DOCES
DO PACÍFICO
(haikais selecionados)

Inverno... E ainda colho
no tronco daquele corpo
dois pomos maduros.


Sol nascente... As mãos
do dia vão desdobrando
a luz da alvorada...


Sol poente... As mãos
da noite vão redobrando
a luz do crepúsculo...


E para que as flores
se me feres com espinhos
quando te dou rosas?


Deixa-me tocar
com as mãos a tua boca...
Eu sei colher rosas!


Refúgio de lágrimas,
meu velho salgueiro ensina-me
a chorar sozinho...


Decepado o tronco,
o carvalho renasceu
em forma de berço.


Plantando em teu corpo,
lanço sementes de beijos
no alto das colinas...


Saciada de beijos,
entregas-me, enfim, a taça
do teu melhor vinho!


De braços abertos,
suplicas que a crucifique
na cruz de meu corpo...


Noite de São João.
Meus balõezinhos de sonhos
queimados na infância...


Resgatei o empréstimo.
Mas não sei como pagar
aquele sorriso..


Da gávea da noite,
com rede de luz, a lua
vai pescando estrelas...


Incêndio de amor!
Teu corpo ilhado no fogo
de meu corpo em chamas...


Arrumando o sótão,
reencontro o pião partido...
E choro em segredo.


Poeta não morre.
Vira óculos de Deus
recontar estrelas...


Meus velhos sapatos...
Doados, levam saudade
das ruas da vida.


Teus cabelos negros
deitando cachos nos ombros...
Minha noite em flor!


Barcos... Ah, os barcos!
Vão ferindo com a quilha
as ondas que os beijam...


Samambaias dançam
em trajes de renda verde
no baile do sol...


Não será saudade
o barulho dos brinquedos
do filhinho morto?...


Jesus veio à Terra...
Não o censurem! Deus quis
conhecer o inferno.


Só o haicai resume
a tragédia humana oculta
na flor de Hiroshima!


Ora, não precisem
mandar que eu vá para o inferno.
Sei onde encontrá-los!


Pecados do mundo...
Ah, os pecados! O que faz
a igreja sem eles?


Na face da amada
os flashes são beijos cósmicos
cortejando a lua...


Chove. Entre o cortejo,
o azul carrossel de hortênsias
da sombrinha dela...


Aquela mulher,
saia preta içada ao vento...
Princípio de incêndio!


Logo eu, tão sincero,
ainda assevero a meus filhos
que os negros são livres!


Falo em liberdade
como se de minha boca
se evadissem pássaros.


Ah, as corredeiras...
E a água açoitando as pedras
com uma canção...


Do cabo da enxada
até o chão – o horizonte
desse lavrador...


Queres só um verso!
E eu sempre escrevo em teu corpo
o poema das mãos...


Do fundo do poço
posso enxergar, lá de baixo,
os que vão descer...


Afagos do ancião
nos flancos da companheira...
O eterno começo!

Afonso Estebanez



PASTOREIO I

Depois que aqui for deixado
e todos tiverem ido
vou ser vento libertado
pelas mãos dos desvalidos
espalhando flor e pólen
no solo fertilizado
com o pranto dos oprimidos...

Vou soltar as estribeiras
cavalgar nuvens em pêlo
e aboiar as corredeiras
de meus rios represados...
Vou montar a liberdade
fingida das carpideiras
na pena dos condenados.

Sob os lábios comprimidos
dente por dente calado
olho por olho cerrado
na masmorra dos sentidos...
Vou virar redemoinhos
e girar pelos caminhos
como pássaros banidos.

Meus sonhos pagens de ninfas
luzes sombras sobre os lagos
prado em flor de claras tintas
e mistérios desvendados...
Vou apascentar meus mortos
na paz de ovelhas famintas
entre lobos saciados...

Afonso Estebanez



PASTOREO II

A viagem de tua alma
terá como roteiro
minha alma de menino.

Teus pés caminharão
pelos meus pés descalços
sobre os liquens e seixos
dos leitos dos riachos.

Raios de sol surgirão da campina
como pássaros das águas de coral.
Suas asas de luz vibrarão na manhã
como brisa entreabrindo janelas
esparsas nas sombras fugidias...

Percorreremos os rumos serenos
das águas fluentes e amenas
das fontes brotadas na relva
como flautas tocadas a esmo...

Abandonaremos por vezes o curso
dos rios e navegaremos o campo
como barcos de nuvens embriagadas
de ventos repentinos.

Iremos para além de onde
nada mais exista
qual pensamento obstinado
num gozo sem motivo.

Reconheceremos rostos amigos
lembrar-nos-emos de coisas esquecidas
e nossos olhos se tocarão num sorriso
sem sofrimento como plácidas mãos
que compartilham pão e vinho
num velho convívio,,,

Afonso Estebanez



PASTOREIO III

Não é apenas sua voz que apascenta
meus dispersos rebanhos de sentidos
e faz correr dentro de mim as águas
das ribeiras com sorrisos flutuantes
de um concerto de flautas e flautins...

É também sua face voltada para onde
e como a flor se inclina ao ser tocada
pelas mãos da manhã em seu jardim...

Nem são apenas as veredas alunadas
por seu destino de amada passageira
que fazem de mim pastor de sonhos...

São todos os caminhos contornados
pelos rebanhos de suas esperanças
reencontradas entre vales e colinas
e nos bosques tingidos de alfazema
para repousar a lembrança da volta...

Ah, os anjos desenhados no espaço
de seu corpo e os risos precursores
das palavras que nunca foram ditas...

É esperança que só o adeus revela
quando o seu coração agita a alma
para alcançar os sonhos fugidios...

Pássaro liberto pelas mãos da vida
borboleta com sua dimensão exata
desse perder-se sem ficar perdida...

Afonso Estebanez



PASTOREIO IV


Eu preciso apascentar os teus cabelos
e beijar com os lábios da brisa tua face
eu preciso iluminar o lado oculto da lua
de teu corpo e denunciar a descoberta
do mais fértil planeta do teu coração...

Edificar com a lua teu quarto de dormir
entre rosas e gérberas sobre o teu leito
de amanhecer com as canções do mar..

E vou permitir que a luz do sol se deite
como aurora cansada de amanhecer...
E, finalmente, vou esquecer de sonhar
que você foi o meu bom-dia prometido
como uma orquídea na beira do jardim
que foi cúmplice de meu sonho casual
despertado neste cafezinho da manhã
de nossa vida...

E nunca mais tu me dirás um até logo,
nem quando necessária a despedida...

Afonso Estebanez



POEMÍNIMIS

espinhos
de flores
carinhos
de dores

espinhos
de dores
carinhos
de flores

malditos
benditos
carinhos

benditos
malditos
espinhos

Afonso Estebanez



REFRAÇÃO


Cristalina luz de aljôfar
na flor do lótus reluz
como um círio de alva chama...
No mistério de minh’alma
a luz emerge da vida
que tem raízes na lama.

Fragmentos de marfim
via-láctea refletida
no fundo da poça d’água...
Meus olhos cegos da vida
podem ver a luz profunda
que dentro d’alma deságua.

Azuis relampos nas asas
borboleta que transmigra
da lagarta ao firmamento...
Divino sopro da morte
que as asas da luz libertam
no estertor do sofrimento.

Luz de sons noturnos guizos
que há nos risos das crianças
como chuva estilhaçada...
Clarins de vozes etéreas
querubins que vêm nas trevas
e explodem numa alvorada...

Afonso Estebanez



PONTO DE VISTA


vendedor de frutas
a mangueira morta
o pomar deserto
os jardins desfeitos
de noite surgia
a lua madura
entre os galhos
secos
Afonso Estebanez



AQUELE TEMPO
ERA DE AÇÚCAR

Criança,
ama com fé e orgulho
a terra em que nasceste!
Será que não verás
país nenhum como este?

Houve um tempo em que a escola
era uma casa de aprendiz de amor à pátria.
Os muros eram feitos de melado e rapadura.
A professora tinha lábios de sorvete de morango
e o hino nacional era cantado à marselhesa
ao pé do mastro onde a bandeira tremulava
como um troféu entre as muralhas da Bastilha.

O chão de nossa rua era de açúcar
as calçadas de torrões de chocolate
e a chuva no telhado era baunilha...

Não havia entrelinhas na cartilha
e cada herói jazia em seu lugar.
Nossos pais, de bem pouco suspeitavam
Nem a Voz do Brasil nada informava
sobre trilhas e ardis de vis tropeiros
caminhos das Bandeiras de piratas
e Capitães d’América e Mandrakes trapaceiros,
fazendeiros vestidos de jagunço de gravata,
lobisomens de araque e coronéis aventureiros
garimpeiros do Conde de Assumar...

Ah, nas crinas prateadas dos canaviais
a lua não se casa mais com o luar...
O vento deu lugar à brisa peregrina
fugitiva do fogo das usinas
tocadas pelo braço servil dos samurais.

Não têm nome de heróis os bóias-frias.
Nas galerias os heróis são generais.

A História apelidou de Tiradentes
o mártir solitário de certa independência
de quem jamais ouviu falar Coimbra,
cujo nome não consta nos compêndios
de Sorbonne...

Aqui onde nascemos e vivemos
a História dá nome às avenidas
e os becos-sem-saída não têm nome!

Porque este é o Mundo de Mrlboro
do cavalo furioso de fundo de quintal
do alpinismo genital do coiote extasiado...
Ah, o cacoete do nacionalismo alcoólico.
Oh, o cigarro top-model e o sexo oral...

O manifesto cívico e moral
do arquivo oficial da ditadura
nas entrelinhas da cartilha descartável
nas aulas de melado e rapadura...

O chão de nossa rua era de açúcar,
calçadas de torrões de chocolate...
A praça da matriz de caramelo
iluminada com bolinhas de sorvete...

Criança,
ama com fé e orgulho
a terra em que nasceste!
Será, será que não verás
país nenhum como este?

Afonso Estebanez



POEMETO

sobre o rio da vida
essa ponte de amor
tu na margem de lá
eu à margem de cá
segurando esta flor
desfolhada na mão
do possível morrer
pelo ser ou não ser
como rio entre nós
uma dor de paixão

Afonso Estebanez



PSICOFOTOGRAFIA

Há o sabor acre do pranto
o amor rústico das vinhas
e há o êxtase dos cânticos
das almas das andorinhas...

Há o amor dos namorados
o enlace das almas gêmeas
entre eflúvios perfumados
dos canteiros de alfazemas...

E amores chegam de trem
ou nos destinos das cartas
às vezes chegam do além
no murmúrio das cantatas...

E apesar dos desencantos
o ofício das bem-amadas
é de haver os reencontros
das almas desencontradas...

Afonso Estebanez



REFLEXÕES NO QUARTO DE ALUGUEL

Aqui de dentro do quarto lá fora é ausente e baldio
mas lá de fora ao relento aqui dentro é mais vazio.

Sem flores e sem retrato de tão nada me angustio.
Lá de fora onde pernoito aqui dentro é noite e frio...

Aqui de dentro do quarto lá fora é um barco no rio
e lá de fora mar à vista aqui dentro é o meu navio...

No leito deita teu corpo feito cais para o meu cio...
Teu barco entra no porto e no corpo o meu navio.

E como um dia no barco lá fora é tarde e erradio
aqui de dentro do quarto sobre o mar do casario...

Lá fora não me conforta nem importa esse fastio
é o barco que transporta o ser no mundo sombrio.

Aqui de dentro do quarto lá fora é tempo de estio.
Entre sonhos me reparto, que viver é um desafio...

Entre ciprestes me deito e entre lençóis me alivio
aqui dentro sobre o leito em teus beijos me sacio...

Aqui de dentro do quarto lá fora há o vento vadio
lá de fora aqui de dentro não é triste nem tão frio...

Lá fora é apenas o barco de meu fantasma arredio
navegando nos telhados de meu fado em desvario...

O corpo preso no quarto a alma farta e o ser vazio
o mar vasto leva o barco num sonho vago e tardio...

O vento quase me diz e não ouço por um fio
como é quase ser feliz no quarto quase navio.

Afonso Estebanez



RELANCE

Quando me olhas vagamente
com o olhar de mel das algas
eu me lembro dos momentos
daqueles meus velhos tempos
de caçador de esmeraldas...

Afonso Estebanez



PARÁBOLA DE AMOR


O que vou te confessar agora
nesta inconsútil parábola de amor
a ninguém jamais foi dito.
Nem eu sei
o que dizer daquilo que não tem memória.

É como o nascimento casual
de uma flor na relva do jardim
ou a canção inesperada de um pássaro
que canta por instinto.
Porque o destino do pássaro
é cantar,
assim como o destino da flor
e florescer...

E se o destino do que devo te dizer
é esse,
então o amor por si próprio se revelará
inexoravelmente
como o sol que entra de manhã
pela janela de minha casa.

Por isso,
peço que guardes minhas palavras
para toda a vida
como a única,
última
e decisiva chave
do teu livre convencimento.

Porque amanhã,
se eu te disser a mesma coisa
já não seria a mesma coisa,
senão aquilo que te não disse
com as mesmas palavras
que teus ouvidos já ouviram
e teu coração já sentiu...
E é tudo o que sabes das águas de um regato
que não rolam mais por onde já passaram...

As aves que bailam pelo céu
nunca traçam a mesma trajetória,
ainda que prossigam em cumprir
seu destino de voar
como silfos desenhando no infinito
um aeromapa de rotas desconhecidas.

As palavras,
pastoras dos rebanhos de minhas emoções,
jamais conduzirão suas ovelhas pela mesma trilha
onde os lobos dos sentidos
tocaiam suas presas.

Assim como a canção mais leve
que há no mais breve instante em que o cristal
se quebra,
assim minhas palavras
são como as borboletas que morrem
após seu único,
último
e efêmero ato
de amor eterno!

Põe tua última atenção em mim.
Eu quero que me ouças assim como te falo
– de braços apertados ao redor desse meu próprio abraço,
como quem vive da alegria reinventada de viver...
Ou de braços abertos para a noite iluminada
como a aurora que precede a convenção dos pássaros
antes de o dia amanhecer...

Repara bem no que agora vou dizer:
– Minha vida foi de inventar.
A única coisa que tenho reaprendido
é ficar ancorado ao redor de tua vida
como a ave marinha que não sabe de outra ilha.

A travessia para mim foi um naufrágio
de que não guardo mais qualquer recordação.
Estar aqui é só o que me basta,
como às eras dos penedos basta a brisa que as visita.
Minha esperança não tem nenhuma inquietação.
Meus sentidos não têm um só pressentimento.
Em silêncio me deito em teu regaço
e agonizo num êxtase sem sofrimento.

E assim vou construindo a eternidade deste instante
como o náufrago que reconstrói a sua nau
dos restos que ficaram dos momentos...

Despojo-te de tuas vestes
e faço disso um ritual de paz
e não um exorcismo de memórias e ressentimentos.
Eu faço como o sol que despe sua flor na relva
pela simples razão de que há nisso
o instinto de sublimação pelo milagre renovado.

Quantas e quantas vezes tens deixado
que eu te crucifique no meu corpo
pelo simples mistério que há no amor
de imolar-se sem ter padecimento.
Quantas vezes velei para que tu dormisses
com o murmúrio do mar ao redor de sua ilha...
E era sempre meu anjo quem velava
os sonhos de nós dois enquanto tu dormias.

Jamais pedi que me dissesses o quanto te mereço
nem sei se o sol o exigiu da flor.
Emigra o pássaro e seu canto fica...
Se é passageiro vem do que padeço.
Mas se é eterno vem do nosso amor!

É por isso que peço que me escutes
pela última vez em tua vida...
– Das mais altas colinas de meu ser
das mais altas encostas já vencidas

declaro-te mulher,
rainha te consagro
e deusa te proclamo...

E meu grito ressoa nas montanhas:

– EU TE AMO!...
– EU TE AMO!...
– EU TE AMO!...

Afonso Estebanez



ONDE VIVEM AS CANTIGAS


Preciso de que me fales
onde guardas o silêncio
o mistério guarda onde
os segredos do relento
e na brisa destes vales
preciso de que me fales
das horas de desalento

e que luz veio do olhar
onde vive o teu silêncio
no segredo da alvorada
da brisa solta no vento
é preciso que me digas
onde vivem as cantigas
já perdidas pelo tempo

será no choro dos rios
nas flautas anoitecidas
nas ameias das garoas
na saudade da partida
é preciso que aconteça
e o amor ainda mereça
retornar à minha vida.

Afonso Estebanez



ONIRIANDANTE


Meu sonho de jardineiro
caminha à noite sozinho
pois estrelas podem ser
galáxia de rosas brancas
espalhadas no caminho.

Vejo nuvens navegantes
colho em rendas do luar
ando em águas infinitas
como se o lúmen da lua
fosse o caminho do mar.

É assim que teu menino
morre de tanto sonhar!
Como poeta viandante:
vivendo de tanto sonho
nunca mais vai acordar...

Afonso Estebanez



POR UM GRANDE AMOR

Nascer é como ouvir passar um rio
na concha do recôncavo da aurora
que acorda no crepúsculo sombrio
do tédio de passar sem ir embora!

Viver é como estar em pleno estio
de quando a primavera comemora
nos arco-íris do sonho o desfastio
de reflorir do estio de quem chora!

Sonhar é como reinventar o acaso
da causa dos amores sem destino
nas histórias de reinvenção da flor.

Morrer!... É como recontar o caso
de reinventar o sonho clandestino
de ter vivido por um grande amor!

Afonso Estebanez



CANTIGA INOCENTE

Construo estradas na alma
onde os sonhos vão passar
e na espera passa a calma
para o amor poder sonhar.

De alguns fios de alvorada
as cordas de um bandolim
vêm tocando pela estrada
do amor cantado por mim.

Por aqui passa a saudade
da saudade que não sinto
do meu sonho de verdade
que vivo quando consinto.

Consinto que tu me vejas
chorando porque me vais
sem sair das profundezas
de meus encantos banais.

Encantos de ser um louco
ou o eterno entre mortais.
É tão pouco! se do pouco
teu amor não tenho mais!

Afonso Estebanez



CENTELHA

Nunca espero desta vida
o que a vida não me deu
minh'alma compadecida
é do amor que renasceu.

Corações a toda a brida
o meu nas beiras do teu
mas tu amavas dividida
sem saber qual era meu.

Montanhas a fé remove
e o amor é que comove
a centelha dessa chama

que me dói e não apaga
e me diz que não acaba
que o amor inda te ama.

Afonso Estebanez



“BEIJÍSSIMOS”


Por tudo o que me deste
por tudo o que não deste
a minha gratidão
em beijos de perdão...

Por tudo o que te dei
por tudo o que não dei
a tua gratidão
em beijos de perdão...

Beijíssimos
dulcíssimos
uníssonos
no coração.

Afonso Estebanez



BAILIA - 1


O sol se põe
em seu corpo
e se trança
em seus cabelos
como arco-íris
derramado
em campos
dourados
de arroz....

Afonso Estebanez



BAILIA - 2


Com um lenço branco
tuas mãos acenam-me
o primeiro adeus...

Frágeis borboletas
entre os arabescos
da paz desatinada
nas mãos trêmulas
do vento...

Com um lenço branco
tuas mãos acenam-me
o último adeus...

Afonso Estebanez



BAILIA – 3

Na angústia da insônia
eu me conto minha vida
e durmo de tédio...

A noite acomoda-se
à beira de um riacho
e as águas cantam para ela
uma canção remota...

É assim
que ainda me conto
a história
de minha vida
escrita nas estrelas...
A lua é o ponto
final...

Afonso Estebanez